I ENCONTRO DE ETNOBIOLOGIA E ETNOECOLOGIA DA REGIÃO NORTE

"ETNOCONSERVAÇÃO E ÉTICA: DIALOGANDO ENTRE OS SABERES"

Algumas estimativas indicam que a população indígena brasileira no século XVI era de 2 a 4 milhões de pessoas. Na primeira metade do século XX essa população, cerca de um milhão, foi reduzida para 200 mil (Ribeiro, 1957, apud Azevedo, 2000). Desde o período do descobrimento foram perdidas 85% das 1.273 línguas faladas (Franchetto, 2000). Esse processo de empobrecimento da sociodiversidade brasileira foi acompanhado, simultaneamente, por uma dramática redução na biodiversidade eliminando-se suas enormes potencialidades, não somente pela perda dos recursos naturais possíveis de serem utilizados economicamente mas, também, os serviços ambientais oferecidos pelos ecossistemas adequadamente manejados e conservados. No seu livro "A ferro e fogo" Warren Dean narra, magistralmente, a destruição, quase total, da Mata Atlântica provocada pelo uso predatório da natureza em detrimento das populações humanas nela residentes.
O avanço e a apropriação das últimas paisagens naturais pelo capital tem sua racionalidade explicada na globalização da ideologia econômica neoliberal. A prática da depredação ambiental em nome do dito "desenvolvimento econômico" é o epílogo anunciado da destruição dos ecossistemas naturais. As possibilidades da permanência das sociedades humanas e da vida neste planeta diminuem rapidamente pelo agravamento das condições adversas nas mudanças climáticas globais e pelo envenenamento provocado pelo despejo dos resíduos do desenvolvimento sobre os ambientes.
Darrell Posey, que será homenageado neste evento, afirma que as sociedades indígenas, antigas e modernas, ajudaram a moldar a paisagem natural das florestas e cita a prática do plantio de milhares de plantas de açaí, bacaba e árvores frutíferas como uma manifestação moderna de uma antiga prática da etnia Kayapó. Ainda hoje é possível encontrar nas populações rurais amazônicas a prática desses conhecimentos empíricos tradicionais integrados, em maior ou menor escala, à práticas introduzidas. Clement, relata sobre os centros de origem de espécies vegetais da Amazônia considerando os índios e os caboclos como os grandes responsáveis pela preservação dos recursos genéticos e, por isso, deveriam receber os agradecimentos e não a destruição de suas culturas e vidas, como ocorre atualmente.
A Amazônia Ocidental mantém, ainda hoje, sua vegetação natural quase totalmente preservada, graças as formas tradicionais de manejo ambiental praticadas pelas populações autóctones. Por meio delas, podemos imaginar uma visão de futuro do paradigma de desenvolvimento sustentado e conservação da sócio e biodiversidade, baseado na manutenção da floresta como elemento permanente da paisagem e nas formas de produção tradicionais, oferecendo elevados patamares de auto-suficiência e auto-sustentabilidade.
O manejo dos recursos naturais, associando as formas de produção tradicionais, o etnoconhecimento e o conhecimento científico, por certo, poderá criar condições para que o processo de conservação ocorra em patamares mais elevados. Mas esses valiosos conhecimentos tradicionais encontram-se ameaçados de extinção como conseqüência da dita “modernização” do meio rural, da destruição das culturas indígenas e caboclas e da transformação do modo de ocupação e produção na região. É necessário que o processo interativo entre o conhecimento científico e etnoconhecimento ocorra imediatamente. O registro dos etnoconhecimentos associados aos uso , manejo e conservação dos recursos genéticos, por certo, oferecerá subsídios valiosos para elevação dos conhecimentos sobre a dinâmica evolutiva dos seres vivos e a conservação dos ecossistemas.
No final do seu livro, Warren Dean diz: "entre os brasileiros que estudaram a história da Mata Atlântica e contemplaram a presença de seus arvoredos remanescentes, a Floresta Amazônica provoca especial alarme e presságio. O último serviço que a Mata Atlântica pode prestar, de modo trágico e desesperado, é demonstrar todas as terríveis consequências da destruição de seu imenso vizinho do oeste".
Em diferentes lugares deste planeta, os verdadeiros guardiões da natureza, as populações tradicionais e indígenas, lutam pelo direito legítimo de permanecerem em suas terras de ocupação tradicionais. Em algum lugar do mundo, os aborígenes de Papua Nova Guiné, os descendentes dos Maias, em Chiapas, México, os índios e povos tradicionais da Floresta Amazônica, lutam pelas suas terras, culturas, tradições e liberdade tão dignamente munidos de saberes, culturas e valores considerados antiquados e ultrapassados pelas sociedades hegemônicas, mas poderosamente verdadeiros quando entendidos no sentido pleno da realização humana em sociedade e na relação do homem com a natureza. Sem dúvida, esses povos lutam, também, pela natureza, liberdade e vida de todos nós. A eles rendemos as nossas homenagens e dedicamos o I Encontro de Etnobiologia e Etnoecologia da Região Norte.

Hiroshi Noda - INPA